sexta-feira, novembro 01, 2013

das coisas que escrevi no diário de campo: meu Caminho de Santiago.

01/07/2013 – Dia 1 – 29km
De mochilão nas costas, cajado na mão e cabeça a mil! O barulho da estrada ainda por vezes me seguia e, ainda que não houvesse estrada, meus pensamentos me levavam a problemas, decisões e pessoas fora dali. Preciso me desconectar. Melhor: preciso me (re)conectar comigo mesma, meu ser, minha natureza, essa natureza mesma que me rodeia. O Caminho fará isso por mim? Encontrarei as respostas pr’aquelas perguntas que eu talvez sequer tenha coragem de fazer? Acalmará meu coração?
[...]

02/07/2013 – Dia 2 – 34km
[...] Depois descobrimos que aquela etapa de 12km era chamada de quebra-pedra de tanta subida e baixada que tinha. Em um ponto já não raciocinava, era simplesmente respirar e caminhar. O cajado se converte em uma extensão do seu próprio corpo, outro membro, que te apoia, te suporta, divide o fardo, impulsiona.
A paisagem mudou, o sentimento mudou e começaram a surgir peregrinos de todas as partes. Podem todos eles serem chamados de peregrinos? Serei eu uma peregrina com apenas 2 dias de caminhada? O que faz de um peregrino, peregrino?
Dormir sem boa noite, sem resposta, sem chão. Como sentir-se sem chão depois de ter caminhado 34km? Fica aí a questão.

03/07/2013 – Dia 3 – 23km
[...] Incrível como passava gente por mim! Não sei de onde surgiam, saíam, mas me atravessavam apressados. Às vezes diziam ‘buenos días’, ‘hola!’ ou ‘buen caminho!’, mas quase sempre só mantinham seu ritmo imparável, na ânsia de simplesmente chegar ao destino.
Fui no meu tempo, buscando a pausa, a contemplação, o desfrute da brisa fresca que fazia quando adentrava as trilhas no bosque. Sentia-me só, mas forte e disposta, apesar da dor. Logo encontrei com o Quico outra vez (que me reconheceu pela risada!) e ele disse que nos fazia bem seguir o caminho sozinhos. Talvez ele tivesse razão...
Hora da cena, não tenho ganas de sair, mas meu estômago ronca. Me parece solitário demais sair sozinha e caçar um restaurante. Me parece solitário demais comer pêssegos na cozinha do albergue. Solitude a gente escolhe?

04/07/2013 – Último dia – 19km
[...] É verdade o que dizem que o caminho se faz caminhando. Permitir-se parar um pouco, assumir um passo lento... essas decisões não equivalem à desistência, é mais uma questão de auto-conhecimento, de saber seus limites, mas também de superar alguns deles (ninguém disse que tinha que ser fácil). Há que carregar seu peso nas costas, o que é realmente indispensável e o que se deve deixar no meio do Caminho.
Nesse balanço diário pessoas passam, te cruzam, voltam a cruzar ou não. É necessário desapegar-se. Há milhares de maneiras de se chegar a Santiago de Compostela, mas nem todo mundo tem a obrigação de querer chegar lá.


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