Vou seguir um
conselho que me deram e tentar encontrar sentido nas minhas sentimentalidades
cotidianas.
É que o chuveiro
aqui de casa (acho que já me dou o direito-dever de chamar esse velho apê
assim) vem me decepcionando há algum tempo. Ele tem a mania de começar quente e
terminar frio ou intercalar momentâneos câmbios de frio-calor durante esse que
ultimamente tem sido um dos momentos mais preciosos e reveladores do meu dia: o
banho.
Percebi que é
durante um bom banho que começo a escrever ideias incompletas mentalmente. Inicio
histórias, uma, duas, três coisas diferentes sobre o que me faz falta refletir,
sentar e escrever sobre. Infelizmente (ou feliz) tenho que parar com essa mania
de não coloca-las para fora logo em seguida e não correr o provável risco de
perder as melhores minuciosidades (acabo de descobrir que essa palavra não
existe) de cada pensar e, ao fim e a cabo, perder, com isso, a chance de
encontra-me nesse emaranhado de palavras-mentais. Afinal, ainda não inventaram
o que eu tão desesperadamente sonho já há tempos... não dá pra gravar
pensamento (dá?).
Assim sendo, cá
estou mais uma vez frente à tela fria que anda me separando de tudo que mais
anseio nos últimos meses, mas isso fica pra uma próxima divagação.
Voltando às mudanças
de temperatura, acabei me surpreendendo como uma água fria sobre a cabeça pode
libertar angústias profundas, quando o que na verdade se deseja é o calentar
(essa também não existe, é mais d’uns espanholismos que adquiri nesses 5 meses
fora de casa); o calentar silencioso de uma água não morna, mas quente, quente
de deixar o peito vermelho. Como se isso fosse capaz de sumir com a velha pele
e renovar a alma tudojuntodumavez.
E era um dia de
merda ouvindo o que não queria ouvir, pensando o que não queria pensar,
sentindo o que eu já deveria ter sentido, ou o que eu nunca deveria ter
sentido. Era demasiado pedir um banho quente? É, parece que era.
Ergui um pé, depois
o outro e entrei na banheira-chuveiro. Tive dez segundos de alívio morno e logo
a chuva mais fria do mundo. Tentei me forçar a acreditar que não era comigo,
que a água continuava quente, que era só questão de tempo, era só mais um
daqueles câmbios momentâneos de temperatura. Permaneci firme. Permaneceu frio.
Sentei ali mesmo na
banheira branca e tão fria quanto a água que caía. Sentei e chorei, soluçando
feito criança. Um choro doído, profundo e sincero. Era só pelo frio que
chorava?
Não havia ninguém em
casa. Juntei coragem, me enrolei na toalha e ainda choramingando atravessei o
corredor até a lavanderia, onde fica a calefação do piso. Movi aquele botão que
nunca entendi pra que serve, mas que quase sempre funciona. E desejei mais que
tudo que aquele quase-sempre funcionasse.
Voltei para a ducha
ainda um pouco descrente. Entrei, liguei o chuveiro e esperei. Aos poucos a
água foi ficando morninha e os soluços foram diminuindo. Senti meu peito
queimar. E aí ficou tudo bem.
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